CREMATÓRIO: POR TRÁS DAS CORTINAS

Conheça os bastidores da indústria da cremação e por que ela prospera no mundo todo.


Urna para cinzas.

Favor comparecer à sala de cerimônias.” É assim, por um chamado de um alto-falante, que acontece no maior crematório do Brasil, o de Vila Alpina, em São Paulo, que possui uma média de rito funerário que dobrou na última uma década, chegando a 10 mil por ano. A partir daí, todos se movem em direção ao anfiteatro de cortinas brancas e assentos com almofadas verdes. O centro da sala é conectado por um elevador ao andar de baixo. É por ali que sobe o motivo daquele encontro: um caixão. Passam-se dez minutos de palavras e homenagens ao falecido. É tudo rápido. Em seguida, a urna desce pelo mesmo caminho de onde surgiu, no elevador onde nada mais cabe além dela. Encerrada a cerimônia, a família deixa o anfiteatro. E aí começa a parte que quase ninguém conhece.


Quando o caixão desce, uma campainha toca alguns metros abaixo. Um funcionário do Crematório Municipal Dr. Jayme Augusto Lopes, mais conhecido como Vila Alpina, na Zona Leste de São Paulo, abre a portinhola e recebe a urna. Com a ajuda de um carrinho, a coloca em uma câmara frigorífica. A urna vai esperar ali no mínimo 24 horas, prazo estabelecido por lei — ou 72 horas, ou até dez dias, dependendo da religião ou escolha da família. Passado o tempo determinado, a urna entra numa fila de caixões que serão incinerados.


Caixão na fornalha.

Faz calor, mas não é o sol. São os quatro fornos a gás de 4 metros de altura. Em 1974, esse foi o primeiro crematório da América Latina. Por muito tempo, foi o único. Hoje, existem mais de 100 só no Brasil. E a demanda é crescente. Um número cada vez maior de pessoas acha que não faz mais sentido ter como única alternativa após a morte ir parar debaixo da terra. A falta de opções parece não combinar com nossa era, marcada pela abundância de escolhas. Num claro sinal de quebra de uma tradição milenar dos cristãos, ser cremado virou, digamos assim, uma nova tendência.


O fenômeno está longe de ser tipicamente brasileiro. A própria Igreja Católica, que aboliu a proibição da incineração dos mortos nos anos 60, sentiu-se recentemente obrigada a dar novas instruções sobre o tema por causa do “significante aumento” da prática em vários países. As regras aprovadas pelo papa Francisco dizem que a Igreja prefere que os mortos sejam enterrados, mas continua permitindo a cremação, com uma ressalva importante: as cinzas não devem ser espalhadas.


Design de urnas.

Nos Estados Unidos, são mais de 2.100 crematórios. Em estados como a Califórnia, entre 60% e 80% dos mortos são queimados. No Canadá, desde o começo da década passada, a maioria dos mortos é cremada. Na Inglaterra, de cada dez mortos, sete são cremados — ashes to ashes, como cantou, citando uma passagem bíblica, David Bowie, que em 2016 deixou tantos de nós de luto. Suas cinzas foram espalhadas na Ilha de Bali, na Indonésia.

No Vila Alpina, cada incineração leva em média duas horas. Corpos mais pesados demoram mais. Caixões de 250 quilos levam o dobro do tempo. A maioria das urnas é de madeira, mas também há de papelão — a família escolhe. Só não pode ser metal. Joias e acessórios derretem no forno. A exceção são os marca-passos, que devem ser previamente retirados, pois explodem no forno.


A rotina se repete por 24 horas, todos os dias. O funcionário retira as alças e o vidro que cobrem a parte superior do caixão e, com o auxílio do carrinho, acomoda a urna no forno, já aquecido a 800 graus. Quando a urna pega fogo, a temperatura sobe para mais de 1.000 graus. A cada meia hora, o funcionário levanta a porta do forno para espalhar as cinzas e otimizar a incineração. Usando avental e proteção para olhos e ouvidos, ele manuseia uma espécie de pá gigante para remexer o fogo.


Os tempos de atividade em cada forno são controlados com anotações, e as urnas identificadas com números e nomes. Os fornos possuem uma espécie de gaveta na parte dianteira, para onde são dirigidos os restos queimados, puxados de dentro do equipamento. A gaveta sai em brasa, com os fragmentos de ossos. Não, os ossos não queimam totalmente. As gavetas são levadas a uma sala contígua, com suas respectivas identificações, onde resfriam por cerca de 40 minutos. Depois, o “conteúdo” passa por uma grande peneira. “É para separar os restos da madeira e flores que estavam no caixão dos ossos fragmentados”, explicou Filomena Falconi Alcântara, há 31 anos auxiliar técnico-administrativa no Serviço Funerário do Município de São Paulo.


Dali, os fragmentos de ossos são levados a um triturador. Pequenas bolas de ferro, bastante pesadas, também são colocadas no equipamento ligado para ajudar a quebrar os ossos com o movimento. Os pedaços menores lembram uma casca de ovo. As cinzas são, então, colocadas em um saco transparente de tamanho A4, que pode ser entregue assim aos familiares ou transportado a uma urna. Ao final, os cerca de 70 quilos de um corpo humano viram de 2 a 3 quilos de fragmentos de ossos. A funcionária Falconi mostrou os sacos plásticos organizados em uma caixa — são dezenas, todos identificados. Quando foi a vez de seu pai ser cremado ali, Falconi não teve coragem de ficar junto ao forno.




Três mitos sobre o processo de cremação:


Primeiro: não há corpos empilhados no mesmo forno. Em cada equipamento cabe apenas uma urna por vez. E tanto fornos quanto gavetas são limpos a cada incineração. O que não evita, claro, que algumas partículas de pó humano se misturem no ar.


Segundo: não se sente um cheiro forte e nauseante durante a queima. Nada do odor de carne assando nas margens do Ganges, em Varanasi, na Índia. Cada forno é projetado com diferentes câmaras com desenho em “U”, que fazem a fumaça circular por filtros de ar. Ela vai se dissipando no caminho e se torna quase imperceptível na chaminé que liga o andar subterrâneo dos fornos à superfície.


Terceiro: é a composição das cinzas. Como somos feitos de 75% de água, as cinzas se resumem a ossos triturados.



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